A Biologia da Escolha

“Roy Batty”, Digital Art por Andrea Barbieri

*Por Christof Koch e Kerstin Preuschoff

Antes de executarmos um movimento, temos – mesmo sem perceber – a intenção de fazê-lo. Neurocirurgiões já conseguiram despertá-la artificialmente! Ao estimularem determinadas regiões do cérebro, demonstram o poder da “vontade neuronal”. Certamente você já se questionou por que razão fez (ou deixou de fazer) determinada coisa ou por que escolheu esta ou aquela alternativa em uma situação complicada. Afinal, até que ponto realmente podemos escolher? O que define nosso livre-arbítrio – e que parte do cérebro é responsável pela tomada de decisões conscientes?

Uma das tradicionais respostas é que isso não é função do cérebro, mas da mente. Essa visão dualista – aqui o corpo, lá a alma -, no entanto, não passa por uma prova científica. A maioria dos pesquisadores trabalha com fenômenos que podem ser observados e mensurados, como as sensações subjetivas que as pessoas têm enquanto agem voluntariamente. Os dois componentes mais importantes dessa experiência são chamados pelos especialistas em consciência de intenção e autoria.

Antes de executarmos uma ação voluntariamente, temos consciência do que pretendemos. Assim, decidimos, por exemplo, levantar a mão esquerda e pegar um copo de água antes de planejarmos e executarmos a ação. Nesse momento, sentimo-nos subjetivamente autores do gesto: temos claramente a sensação de que nós mesmos controlamos o movimento. Se um amigo pegasse nosso braço e o esticasse para cima, nós também sentiríamos os músculos se esticarem – mas não nos sentiríamos responsáveis pela ação.

Do Desejo ao Ato

Para evitar mal-entendidos: nos darmos conta da intenção ou da autoria não explica se nossa vontade é realmente livre ou se nós apenas estamos sujeitos à ilusão de que ela o é. O fato de que esses sentimentos subjetivos e superficiais são tão reais quanto tudo o que vivemos diariamente é decisivo! E como as ilusões de óptica nos mostram, por exemplo, nossas impressões do mundo podem ser facilmente manipuladas. O mesmo ocorre com as impressões sobre intenção e autoria.

Grande número de experimentos psicológicos comprova que as pessoas subestimam ou superestimam intensamente sua própria participação de acordo com a situação. Assim, o presidente de uma empresa pode aceitar com prazer o reconhecimento (e o bónus financeiro) se elevar o valor das ações de sua organização – mas, inversamente, responsabilizaras turbulências incontroláveis do mercado se a cotação da bolsa cair. Em geral, eventos positivos fazem com que as pessoas supervalorizem sua participação.

Neurocirurgiões conseguiram manipular também o sentimento de intenção. Em algumas operações do cérebro, os médicos precisam extirpartecidos, por exemplo, porque estão tomados por um tumor ou acessos epiléticos têm sua origem ali. Decidir a porção de massa cerebral que será retirada é difícil e arriscado: ou o especialista deixa áreas prejudiciais de tecido canceroso ou ele retira regiões essenciais para a fala ou outras funções importantes.

Para testar qual a utilidade do tecido em torno do ponto operado, os médicos o estimulam com finos eletrodos. Enquanto isso, o paciente-que está anestesiado apenas no local – deve realizar diversas tarefas, como tocar cada um dos dedos sequencialmente com o polegar, contar de trás para frente ou relatar suas sensações subjetivas. Durante um desses procedimentos, o neurocirurgião Itzhak Fried, pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles, fez em 1991 uma descoberta surpreendente. Ele examinou um paciente que havia recebido implantes de eletrodos no lobo frontal e parietal para um diagnóstico mais exato de seus acessos convulsivos. Fried estava especialmente interessado na área motora suplementar (AMS) – região cerebral na frente do córtex motor primário na qual os movimentos do corpo se iniciam.

Estímulos elétricos nesse local normalmente levam a simples espasmos involuntários dos braços, pés ou pernas. Os pequenos choques na AMS previamente conectada também tinham, conforme esperado, o mesmo efeito. No entanto, às vezes eles desencadeavam uma sequência inteira de movimentos, como empurrar algo com a mão ou segurar um objeto imaginário. Isso confirmou a suposição de que os Yieurônios dessa região cerebral participam da preparação e do início de sequências de movimentos complexos.

Mas foi ainda mais interessante o que aconteceu quando Fried e sua equipe estimularam regiões da parte anterior da área motora suplementar: isso fez com que alguns pacientes sentissem o impulso de mover uma parte do corpo. Um paciente relatou durante o experimento que sentia “necessidade de esticar o braço direito” ou, durante o estímulo de outro ponto, o “forte desejo de girar a perna”.

Em 2009, Michel Desmurget e seus colegas do Centro de Neurociências Cognitivas em Bron, na França, conseguiram manipular da mesma forma a vontade de seus pacientes. Dessa vez, os pesquisadores estimularam a parte posterior do lobo parietal, localizado no córtex parietal. Os neurônios ali participam da transformação de informações visuais em comandos motores – por exemplo, fixar os olhos quando vemos algo interessante.

Se a área era estimulada eletricamente, os pacientes faziam comentários como “Eu me senti como se quisesse mover meu pé, mas não sei como posso descrever essa sensação”. Ou tinham “uma necessidade interna de rolar a língua na boca”. Em nenhum desses casos eles realmente executaram o movimento – diferente do estudo anterior de Itzhak Fried, que só precisou aumentar a tensão do eletrodo para que a necessidade se transformasse em uma ação motora concreta. O que aprendemos com isso? Que aparentemente o cérebro possui caminhos específicos que desencadeiam a vontade consciente de realizar um movimento. É preciso reconhecer que ainda tateamos em uma área nebulosa com esses experimentos – não é possível controlar qual ação corporal as pessoas querem (ou irão) realizar exatamente. Mas um dia talvez possamos limitar isso precisamente, identificando os correlates neuronais para a experiência de intenção e autoria. ™e*

Arrependimento: uma conquista da evolução

Do ponto de vista neurobiológico, o arrependimento por ter tomado uma decisão errada – capacidade adquirida ainda na pré-história – está associado à preservação da espécie. Embora seja desagradável, esse sentimento tem enorme importância, já que deveríamos tirar dele lições e, assim, correr menos riscos de sofrer decepções quando novamente precisarmos fazer escolhas no futuro. Os mais habilidosos para tomar decisões contariam com uma espécie de “superioridade evolutiva”, teriam maiores chances de viver mais, de forma saudável e, consequentemente, transmitir seus genes. Hoje, numerosos estudos mostram que pessoas com lesão no lobo órbito-frontal encontram grande dificuldade para tomar decisões que as beneficiem e, por isso, tendem a perder o emprego, são incapazes de manter relações pessoais estáveis e fazem repetidamente investimentos financeiros desastrosos. Porém, essa anomalia não resulta de falta de conhecimento, criatividade ou inteligência.

Segundo o neurocientista António Damásio, professor de psicologia e neurologia da Universidade da Califórnia do Sul em Los Angeles, o problema está relacionado a um déficit emocional. Esses pacientes seriam incapazes de produzir “marcadores somáticos”, isto é, reações emocionais manifestadas quando antecipamos uma decisão, as quais nos previnem dos resultados prováveis da escolha que nos preparamos para fazer (por exemplo, o desconforto que sentimos diante da ideia de repreender severamente um amigo).

Estudos feitos pela neuropsicóloga Angela Sirigu em parceria com o neuroeconomista Ciorgio Coricelli e Nathalie Camille, então do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), nos Estados Unidos, sugerem que o arrependimento constitui um marcador somático controlado primeiramente pelo córtex órbito-frontal – daí lesões nessa região acarretarem consequências tão específicas. Essa área teria se tornado muito importante por conduzir todas as situações de escolha, produzindo os “arrependimentos antecipados”. Daí essa sensação desconfortável, uma espécie de “efeito secundário” de nossa capacidade de fazer escolhas. Inversamente, as pessoas incapazes de se arrepender tomam decisões que com frequência lhes trazem dificuldades.

Palpite, hesitação ou certeza?

Jogos e apostas realizados com base em conhecimentos dos quais ainda não estamos conscientes podem ter ótimos resultados, mostram estudos.

É inegável que muitas de nossas ações se passam fora do alcance da consciência: se ajustamos a postura corporal durante uma conversa ou se nos apaixonamos por determinada pessoa, em geral não temos ideia de exatamente por que – ou como – fazemos essas escolhas. Para a maioria delas encontramos explicações superficiais (“fico mais confortável nessa posição” ou “gosto do meu noivo”, por exemplo). Por baixo dessas justificativas, porém, pode haver muitos mistérios.

A noção freudiana de que a maior parte de nossa vida mental é inconsciente é difícil de ser estabelecida de maneira rigorosa – mas se nos dispusermos a observar nossos comportamentos será ainda mais complicado negar essa influência de uma instância pouco conhecida dentro de nós. Algumas das certezas que cultivamos podem não resistir a um questionamento mais atento. Um exemplo simples: “Ao acionar um interruptor, você conscientemente viu a luz se acender?”. Embora pareça fácil responder à pergunta, mais de um século de pesquisas mostrou que não é bem assim. O problema-chave aqui é definir a consciência de tal forma que seja possível medi-la de maneira independente do estado interno do cérebro, ao mesmo tempo que “captamos” seu caráter subjetivo.

Um experimento comum no campo do estudo da consciência se baseia na avaliação do grau de confiança naquilo que percebemos ou pensamos. No teste, um voluntário tem de julgar se uma nuvem de pontos numa tela de computador se move para a esquerda ou para a direita. Ele em seguida relata quão confiante se sente assinalando um número – por exemplo, 1 para indicar puro palpite, 2 para alguma hesitação e 3 para certeza completa. Esse procedimento mostra que quando o participante tem pouca percepção da direção do movimento dos pontos sua confiança é baixa, mas quando “vê” claramente o movimento sua segurança é alta.

Um relatório apresentado pelos pesquisadores Navindra Persaud, da Universidade de Toronto, e Peter McLeod e Alan Cowey, da Universidade de Oxford, introduz uma medida mais objetiva da consciência: o desejo de ganhar dinheiro. Esse método foi adaptado da economia, em que é usado para avaliar a crença a respeito do resultado provável de um evento. Aqueles que acreditam na informação que têm se mostram dispostos a apostar nela. Isto é, aceitam pagar para ver. Pense no investimento em fundos mútuos. Quanto mais certo você estiver de que a alta tecnologia vai render bem no ano seguinte, mais dinheiro alocará para um fundo destinado a esse setor.

Persaud e seus colegas usam esse tipo de aposta para revelar a consciência – ou a falta dela. Em seus experimentos, os participantes não declaram confiança na percepção de maneira direita. Em vez disso, primeiro tomam uma decisão com base naquilo que perceberam e então apostam uma quantia em seu grau de confiança na própria decisão. Se a escolha se mostra correia, o voluntário ganha o dinheiro; caso contrário, perde. A estratégia ideal é apostar sempre que se sinta seguro. As experiências aplicam essa técnica de apostas para três exemplos do processamento não consciente.

O primeiro é sobre o paciente C.Y. Devido a um acidente de carro que danificou áreas no seu cérebro responsáveis pelo processamento visual, ele tem o que se costuma chamar de “visão cega”. Essa condição o deixa com a capacidade não consciente de localizar uma luz ou relatar a direção na qual uma barra colocada numa tela de computador está se movendo, embora ele negue ter a experiência visual – C. Y. insiste que está apenas chutando.

O paciente pode indicar a presença ou ausência de uma rede fraca e pequena em 70% de todos os testes, bem mais do que uma chance média (50%). Apesar disso, ele falha em converter esse desempenho superior em dinheiro quando está apostando; coloca quantias altas em menos da metade de suas escolhas corretas. Quando está ciente do estímulo, C. Y. aposta alto – exatamente o que qualquer pessoa faria. Suas apostas parecem espelhar a percepção consciente que tem do estímulo (isto é, a crença de que ele o viu) em vez de sua detecção real (inconsciente) do estímulo. Isso sugere que as apostas podem servir como meio de medir a consciência.

No segundo experimento, participantes aprendem um pequeno número de poucas letras em uma “gramática artificial”. São informados de que as sequências obedecem a uma única regra (por exemplo: todo “x” é seguido por um “a”). Mas não lhes é dito qual é a regra. Quando vêem uma nova sequência, os participantes podem com frequência determinar de maneira correta se esta segue a regra desconhecida. Ainda assim, os voluntários apenas raramente a expressam porque ficam em dúvida se a sequência obedece ou não à regra. A taxa geral de classificação correta (81%) é bem melhor do que o acaso. Ainda assim os participantes não convertem esse desempenho em dinheiro. Apostas altas são seguidas por uma escolha correta em 45% do tempo e uma opção equivocada em 32% dos casos. Em resumo, os participantes do estudo normalmente acertam a sequência que segue a regra, mas não têm confiança suficiente para apostar nisso.

No experimento final, chamado “a tarefa de aposta de lowa”, as pessoas pegam a carta do alto de um de quatro baralhos. Cada lâmina faz com que ganhem ou percam certo valor em dinheiro. Sem que elas saibam, dois dos quatro baralhos têm um rendimento líquido positivo e dois, negativo. Os participantes precisam realizar uma aposta na carta escolhida antes que ela seja revelada – e perder ou ganhar de acordo com isso. No teste, os participantes desviravam um grande número de cartas, uma por uma, descobrindo a cada vez se iam ganhar ou perder. Eles quase sempre descobriam quais baralhos eram ganhadores e começavam a puxar cartas na maior parte das vezes – mas normalmente desviravam ao menos 30 cartas nesses baralhos antes de ganhar a confiança para apostar de forma agressiva nos resultados. Isto é, as pessoas só começavam a ganhar dinheiro muito depois do momento em que seu próprio comportamento deveria ter revelado que sabiam quais baralhos eram vencedores.

Para explorar essa hesitação, Persaud e seus colegas usaram uma variação desse experimento na qual interrogavam os participantes periodicamente em relação a tudo que estes sabiam sobre o jogo e os baralhos. Quando os participantes examinavam assim seu conhecimento do jogo, o intervalo entre o início da escolha do baralho positivo e as apostas vantajosas desaparecia, sugerindo que o ato de introspecção altera a percepção dos participantes. Examinar o próprio conhecimento os tornou mais conscientes do que eles sabiam. Essa descoberta indica que apostas feitas com base em conhecimentos dos quais ainda não se está consciente – podem ter melhores resultados, uma demonstração da utilidade da máxima “conhece-te a ti mesmo” da filosofia ocidental.

As técnicas de apostas usadas por Persaud, McLeod e Cowey dependem da capacidade intuitiva de fazer boas escolhas – e, nesse caso específico, obter lucros. Em comparação com a tática de forçar participantes a se tornar cientes de sua própria consciência – e nesse processo interferir no próprio fenómeno que se deseja medir-, as apostas representam uma forma mais sutil de avaliar a percepção, mostrando-se uma nova maneira mais lúdica – e reveladora – de estudar a percepção e os processos de tomada de decisão. Desses passos, aparentemente pequenos, surgem possibilidades para ampliar a compreensão de como a consciência surge da experiência.

*Christof Koch é professor de biologia e engenharia do Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena. Kerstin Preuschoff é neurocientista, pós-doutorada em teoria da decisão.

FONTE: Revista Viver Mente & Cérebro


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