O Paradoxo do Homem como Liberdade no Existencialismo de Jean-Paul Sartre

Raskolnikov” por Nikolai Yaroshenko (1846-1898)

*Excertos do Artigo de Cléa Gois e Silva

(…) Para Sartre, a existência desagrega e nulifica a realidade de fato e afirma-se sobre ela como poder absoluto. A filosofia de Sartre é uma filosofia da liberdade absoluta que pretende dissolver e anular toda a necessidade. A liberdade, segundo Sartre , é a possibilidade permanente daquela nulificação do mundo que é a própria estrutura da existência. “Estou condenado, a existir para sempre para além da minha essência, para além dos móbiles e dos motivos do meu ato: eu estou condenado a ser livre”. Isto significa que não se podem encontrar para a minha liberdade outros limites além da própria liberdade: ou, que não somos livres de deixar de ser livres.

A liberdade não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo: radica na mais intima estrutura da existência, é a própria existência. (…). É evidente que a liberdade não se refere tanto aos atos e às volições particulares como ao projeto fundamental em que eles se encontram compreendidos, o qual constitui a possibilidade última da realidade humana, a sua escolha originária. O projeto fundamental deixa sem dúvida uma certa margem de contingência às volições e aos atos particulares, mas a liberdade originária é aquela que é inerente à escolha do próprio projeto. E é uma liberdade incondicionada.

A modificação do projeto inicial é a todo o momento possível. “A angústia que, quando revelada , manifesta à nossa consciência a nossa liberdade, testemunha a modificabilidade perpétua do nosso projeto inicial”. Nós estamos perpetuamente ameaçados de nulificação da nossa escolha atual, perpetuamente ameaçados de escolhermos ser, e portanto tornamo-nos, diferentes do que somos. (…). A liberdade permanece nos limites da factualidade, isto é, do mundo. Mas esta factualidade é indeterminada: a liberdade põe-na em ser com a sua escolha. Por isso o homem é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tudo o que acontece no mundo reporta-se à liberdade e à responsabilidade da escolha originária; por isso, nada daquilo que acontece ao homem pode ser dito inumano. (…). Sou eu que decido do coeficiente de adversidade das coisas e até da sua imprevisibilidade decidindo de mim própria.

Não existem casos acidentais: um acontecimento social que se me depara subitamente e me arrasta não é exterior a mim; se sou mobilizada para uma guerra, esta é a minha guerra, a minha imagem, e eu mereço-a: “Mereço-a em primeiro lugar porque poderia subtrair-me a ela suicidando-me ou desertando; devemos ter sempre presentes estas possibilidades últimas quando temos de enfrentar uma situação. Se não me subtraí a ela, é porque a escolhi (…)”.

Os atos , decisões e escolhas particulares repõem sistematicamente em questão a escolha originária, o projeto fundamental, que por sua vez determina dentro de certos limites as opções, as volições e os atos particulares. Sartre pensa que a estrutura ontológica do projeto fundamental deve ser atingida através de uma Psicanálise Existencial, diferente da psicanálise de Freud sobretudo porque a sua justificação última consiste em reconhecer a existência, não de uma força instintiva que atua mecanicamente, mas sim de uma escolha livre. Para a psicanálise existencial, projeto de ser, possibilidade, valor são termos equivalentes que exprimem, todos, o fato fundamental de que o homem é desejo de ser. (…).

(…) A ontologia de Sartre não consegue disfarçar, uma inelutável compulsão à transformação do homem. Uma primeira razão para compreendê-lo pode ser vista na presença do problema moral, como já mencionamos , em seu livro O Ser e o Nada. E, de um modo geral, embora não seja explicitado, o problema ético está mais presente nas análises de Sartre; não é por acaso que ele conclui o seu livro com uma longa série de perguntas que “só podem encontrar uma resposta no terreno moral”. Realmente, toda a análise existencial de Sartre conduz necessária e obrigatoriamente a uma ética. (…)

Não é igualmente um acaso que os últimos capítulo de O Ser e o Nada estejam dedicados ao problema de uma Psicanálise Existencial. Retomando a temática, esta psicanálise “procura determinar a escolha original”, realizada por cada indivíduo, essa escolha que é o centro de referências de uma infinidade de significações polivalentes e que constitui o projeto fundamental do homem. Sartre rejeita o postulado do insconciente: o fato psíquico é coextensivo à consciência. Se o homem sabe em que consiste seu projeto fundamental, se esse projeto é vivido plenamente por ele e se é, portanto, totalmente consciente, isso ainda não quer dizer que ele lhe seja conhecido (…).

(…). O para-si é liberdade compreendida como autonomia de escolha, e Sartre leva essa autonomia às suas últimas implicações. Por ela, determina-se o conceito-chave da ética: o valor. Se a liberdade é absoluta, o valor não poderia apresentar consistência objetiva; muito pelo contrário, o valor brota da subjetividade. A ontologia e a psicanálise existencial devem mostrar ao homem que “ele é o ser pelo qual os valores existem”. E note-se que por homem se entende a individualidade subjetiva. Com efeito, o valor exige um fundamento; mas o fundamento não poderia ser o ser, pois se o fosse, desde que o homem se norteia por valores, o comportamento instauraria a má-fé e destruiria a liberdade. Segue-se que a liberdade é o único fundamento dos valores e que nada, absolutamente nada, me justifica ao adotar tal ou tal valor, tal ou tal escala de valores. Enquanto ser pelo qual os valores existem eu sou injustificável. (…). Desse modo, o valor encontra a sua gênese no ato livre, é absolutamente indeterminado: escolher é inventar. Disso resulta que o homem é apenas seu projeto, só existe na medida em que se realiza, ele é tão-somente o conjunto de seus atos.

De um ponto de vista negativo, a má-fé polariza a grande preocupação dessa doutrina. Sartre busca pensar o fato da subjetividade até os seus limites mais extremos, e para ele isso significa a necessidade de excluir a categoria do objeto. Quando o homem se deixa determinar pelo objeto, ou por uma objetividade que se pretende autônomas, assume “l’esprit de sérieux”; parte-se então, do mundo e se atribui mais realidade ao mundo que a si mesmo. Segundo Sartre, Marx colocou o dogma primeiro do sério quando afirmou a prioridade do objeto sobre o sujeito, e o homem é sério quando se toma por um objeto. Essa seriedade define precisamente a má-fé, que bloqueia a espontaneidade inventiva dos atos. Por essa razão, Sartre recusa toda a moral tradicional, que é livre para o mal e não para o bem, que é livre para o erro e não para a verdade. Bem e mal, verdade e erro devem ser invenções do homem. Nesse sentido, liberdade se faz sinônimo de libertação. Mas cabe então perguntar: libertação do que?

Libertação, antes de mais nada, de tudo o que não se confunde com a própria subjetividade. Mas libertação também de si mesmo. (…). No entanto, a liberdade é fuga de si, é manter-se à distância de si próprio e haver-se com a angústia de não poder ser. (…) Isso quer dizer, enfim, que a realidade humana nunca está realmente em casa, e quando pensa que está, incide em má-fé. O homem se habita perpetuamente como um estranho.

Baseado nessa concepção da liberdade e do valor, Sartre pretende erigir a sua moral da responsabilidade e do compromisso. Definido o valor como criação da subjetividade, entende-se a coerência de Sartre ao dizer o que é responsabilidade: “Tomamos a palavra responsabilidade em seu sentido banal, como connsciência (de) ser (o para-si) o autor incontestável de um acontecimento ou de um objeto”. A definição não é banal, já porque não há nada de banal no que pretende Sartre: condenado a ser livre, o homem carrega o peso do mundo; ele se torna responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. (…). Quando Sartre afirma que “nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela engaja a humanidade inteira”, enuncia sem dúvida, uma grande idéia (…). Com efeito aqui Sartre não deixa margem a dúvidas: ” Sou responsável por mim mesmo e por todos, e crio uma certa imagem do homem que eu escolho; escolhendo a mim, escolho o homem.” Trata-se, afinal , de uma criação de imagens , e dizer que o homem é responsável por todos é o mesmo que dizer que só é responsável por si próprio.

(…) Sartre, quando escreveu O Ser e o Nada (l943), manifestou a intenção de consagrar um estudo ao problema da moral. Desse projeto deixou indicações esparsas em várias obras, entre as quais os Cahiers pour une morale, que foram escritos durante os anos de l947 e l948, e publicado em l983. A moral de sartre é uma moral indiferente às distinções do bem e do mal. Ela assume suas responsabilidades frente a uma determinada realidade humana. É a moral da situação. Segundo os preceitos dessa moral, os valores não existem em si. São criados pelo homem. Consciente de sua liberdade, ele descobre angustiado que é a única fonte de valor. Como Sartre não admite a existência de Deus, com isso desaparece a possibilidade de existirem valores a priori, porque não há quem os pense. E Sartre, convencido de que Deus não existe, admite que não existem valores diante de nós e que tudo nos será permitido. Conclui-se que o fundamento dessa moral é precisamente a ausência de toda norma moral, consubstanciada na ausência de Deus e na liberdade absoluta do homem.

Sartre traça livremente o projeto de sua vida, sem interferência de normas preestabelecidas. As suas decisões dependem apenas dele em cada situação. É o que projeta ser e só existe à medida que se realiza. Ela se define e se constrói pela ação, dentro da relatividade cultural da época em que vive. Face às pressões, deve agir com autenticidade para legitimação de sua conduta. (…) Sartre comenta que, para os que acreditam em Deus como os cristãos, será lícito fazer o bem por ser moral. A moral ficaria assim subordinada à ontologia. Tornar-se-ia legítima a subordinação do fazer ao ser. Entretanto, para ele que não crê em Deus, a moral deve superar-se por um objetivo que não seja ela. Deve-se dar de beber a quem tem sede não para praticar um bem, mas para suprimir a sede. A moral se suprime quando se coloca e se coloca quando se suprime.

(…) Segundo Sartre, cada um nasce numa determinada situação histórica. O problema é que essa situação é forjada por aqueles que o precedem e que pretendem dar ao mundo o sentido que lhes convém. São eles, que definem a natureza humana daqueles que os sucedem. Essa natureza é insidiosa. É uma idéia que penetra em cada um de nós. Quem nasceu judeu, fica penetrado de uma natureza judaica. Assim eu sou pensada pelos outros, graças aos quais eu existo e que cerceiam a minha liberdade. Em suma, eu sou uma liberdade hipotecada. Diante dessa situação eu posso assumir três atitudes: seja resignar-me com ela, seja aceitá-la ou rejeitá-la, seja superá-la. Sartre concebe, além da antinomia entre a moral e a história , uma moral concreta de ação efetiva.

*Cléa Gois e Silva é formada em Filosofia, Mestre em Filosofia pela PUC/RJ, e Professora Universitária.

Leia o Artigo completo clicando AQUI

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