A Sombra nos Arquétipos do Masculino Maduro

Saturno” por Peter Paul Rubens (1577-1640)

Excerto de “Sofrimentos da Alma Masculina: aspectos psicopatológicos do homem numa visão arquetípica”

*Por Humberto Oliveira

3.1 – Introdução

Robert Moore, analista junguiano e pioneiro no movimento masculino e Douglas Gillette sustentam que a masculinidade amadurecida não é agressiva, dominadora nem grandiosa, mas sim geradora, criativa e fortalecedora em relação a si mesma e aos outros. Em seu livro Rei, Guerreiro, Mago, Amante, eles apresentam os quatro arquétipos principais do masculino. Eles apontam que a história do desenvolvimento de cada homem é, em grande parte, a história do seu fracasso ou seu sucesso em descobrir dentro de si esses aspectos da masculinidade madura. Considerando o relacionamento entre a Sombra e cada um destes Arquétipos, Moore e Gillete apresentam uma espécie de tipologia do sofrimento e percalços da alma masculina. Levam em conta as Sombras do Arquétipo do Rei (O Tirano e o Covarde), do Arquétipo do Guerreiro (O Masoquista e o Sádico), do Arquétipo do Mago (O Manipulador e o “Inocente” Negador) e do Arquétipo do Amante (O Viciado e o Impotente). Continue lendo »

Gênero e Super-Heróis: O Traçado do Corpo Masculino Pela Norma

Marte” por Diego Velasquez (1599-1660)

Por *Adriano Beiras, **Alex Lodetti, ***Arthur Grimm Cabral, ****Pablo Raimundo e *****Maria Juracy Filgueiras Toneli

Prelúdio

Ao mesmo tempo refletindo e construindo realidades, as Histórias em Quadrinhos de super-heróis ganham vida na imaginação de seus leitores, estabelecendo fortes ligações com o mundo cotidiano destes. A exemplo de outras mídias, as HQs freqüentemente se prestam a representar ideais, valores, normas e padrões de conduta da sociedade de consumo, que servem à manutenção dos poderes instituídos; ainda que, por vezes, também sirvam à denúncia destes mesmos mecanismos. A construção dessas narrativas está diretamente ligada à experiência concreta de seres humanos – seus autores e editores, em relação com a comunidade leitora – (re)produzindo determinadas formas de existir e funcionando como mediação do real. Continue lendo »

Agressividade X Sobrevivência: Desafio Para a Masculinidade

Plutão” por Agostini Carracci (1557-1602)

*Por Angelita Corrêa Scardua

Para a maioria dos nossos antepassados do sexo masculino só havia dois comportamentos possíveis diante do perigo: lutar ou fugir! Mas, por incrível que pareça, a resposta fisiológica desencadeada pelo corpo diante de uma ameaça é sempre a mesma, e não importa se a nossa escolha é lutar ou fugir.

Quando nos vemos diante de uma situação que nos ameaça, quando nos sentimos amedrontados, pressionados e desafiados, nosso corpo reage exatamente como o dos nossos ancestrais das cavernas: a taxa de adrenalina no sangue sobe, nossa musculatura se contrai, o coração bate mais forte e a circulação de sangue no organismo aumenta; transpiramos, nossas pupilas se dilatam, nossas narinas se expandem para absorver mais oxigênio… Resumindo: o nosso corpo nos prepara para enfrentar o perigo, seja ele real ou imaginário. Toda essa preparação física serve igualmente para o embate “corpo a corpo” e para o estratégico “sebo nas canelas”. Tanto correr quanto lutar exige tonicidade muscular, acuidade visual, maior quantidade de sangue irrigando nossas veias e maior oxigenação dos pulmões. Continue lendo »

Para Ser Um Guri: Espaço e Representação da Masculinidade na Escola

Vulcano” por Peter Paul Rubens (1577-1640)

*Excertos de artigo de Ieda Prates da Silva

(…) (…) (…)

Na experiência com clínica psicanalítica de crianças num serviço público de saúde mental, ao longo dos últimos anos, temos nos deparado com uma realidade que para mim levanta questões instigantes e que o tema (…) A Masculinidade, me oportunizou trabalhar: o número de meninos, principalmente na faixa dos 8 aos 12 anos, encaminhados para tratamento psicoterapêutico com sintomas escolares (agressividade, distúrbios no comportamento, hiperagitação, dificuldades de concentração e de aprendizagem), é significativamente maior do que o de meninas (70% de crianças do sexo masculino e 30% do sexo feminino). A grande maioria dessas crianças é encaminhada pelas próprias escolas; os demais vêm enviados pelo Posto de Saúde, mas geralmente a pedido da escola. Continue lendo »

O Espelho e os Homens: Considerações Sobre os Reflexos na Masculinidade de Hoje

Netuno” por Agnolo Bronzino (1503-1572)

*Excertos de Artigo de Isabel Marazina

Desde a psicanálise, pensa-se que o falocentrismo, que sustenta a distribuição de valores – e de poderes – na sociedade patriarcal, não gerou, mas reforçou o imaginário “eles tem – elas não” que não é mais que a teoria infantil nascida da impossibilidade de inscrever a diferença sexual nos primeiros anos de vida.

Sabemos que esse imaginário promoveu, ao longo da história, uma atribuição social do poder ao homem, que este recebia como algo que lhe era próprio, “por natureza”, enquanto possuidor de um pênis, garantia do brilho fálico. Em momentos em que os atributos de força e valor físico eram imprescindíveis para assegurar a posse das terras, dos Estados e das mulheres, a supremacia masculina era incontestável. Todo um aparelho institucional estava destinado a sustentar a lógica que dividia a espécie entre seres “completos” e “incompletos”. Continue lendo »

Sexualidade, Masculinidade e Crise

Pan” por Carlos Schwabe (1877-1927)

Excerto de “Sexualidade masculina e saúde do homem: proposta para uma discussão”

*Por Romeu Gomes

Afinal o que é ser homem? Segundo Nolasco (1997), tomando como base uma sociedade patriarcal, uma resposta para essa indagação poderia convergir para a representação do homem de verdade. Meninos e meninas crescem sob a crença de que mulher e homem são o que são por natureza. No modelo de masculinidade a ser seguido, ressaltam-se as idéias de que o homem de verdade é solitário e reservado no que se refere às suas experiências pessoais, ou, quando muito superficial e prático, direcionado para agir e realizar atividades. Por outro lado, espera-se que o homem compreenda demandas emocionais de suas parceiras e de seus filhos, sendo cúmplice e sensível. Giddens (1993) observa que a sexualidade masculina tende a expressar mais inquietação do que a feminina porque os homens separam a sua atividade sexual das outras atividades da vida, onde são capazes de encontrar um direcionamento estável e integral. Essas inquietações cada vez mais vêm deixando de ser encobertas. Continue lendo »

O homem na pós-modernidade: reflexões sobre as identidades masculinas…

“Baco” por Leonardo da Vinci (1452-1519)

*Excertos de artigo de Ronald Clay dos Santos Ericeira

Apresentação

Que critérios ou parâmetros definem a identidade masculina? O que delimita o campo do masculino na contemporaneidade? Estes são questionamentos que reverberam cotidianamente nos colóquios científicos sobre estudos de gênero, bem como em programas de televisão destinados a debater, calorosamente, os relacionamentos amorosos na atualidade. Nesses espaços de discussão, divulga-se que o homem estaria em crise consigo mesmo e com sua parceira sexual, pois não saberia mais se adequar ao papel de provedor e a de fortaleza impenetrável às emoções, os quais lhes foram historicamente atribuídos.

Nessa perspectiva, a sociedade ocidental, grosso modo, estaria demandando ao homem maior flexibilidade e sensibilidade ao tratar com sua companheira sexual. Além disso, acrescentamos que sua contínua ausência do lar por destinar significativa parte do seu tempo ao trabalho também teria se tornado mote de acusações de negligência parental. O constante absenteísmo paterno estaria viabilizando o aparecimento de uma geração de meninos fracos, afeminados e sem a noção precisa da importância da lei simbólica que lhes ensinaria as interdições culturais de sua coletividade. Continue lendo »