A Morte

O Anjo da Morte” por George Frederick Watts (1817-1904)

Expectativa de vida
Momento num café
quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes da vida.
Um no entanto descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel Bandeira Continue lendo »

A Morte e o Sentido da Vida

O Luto do Velho Cão Pastor” por Sir Edwin Henry(1803-1874)

*Por Keith Augustine

Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre palhaço que por uma hora se espavona e se agita no palco, sem que depois seja ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muito barulho, que nada significa.
Macbeth, Ato 5, Cena 5, linhas 22-31 Continue lendo »

O Medo da Morte e o seu Enfrentamento Pelo Ser Humano Através dos Tempos

As Horas da Eternidade e a Morte” por Xavier Mellery(1845-1921)

Por *Roseney Bellato e **Emília Campos de Carvalho

As Sociedades Primitivas

O jogo existencial do ser humano, do qual vida e morte se fazem parceiras inseparáveis, é um problema dos vivos e, apenas e tão somente, dos vivos humanos, pois, embora compartilhem o nascimento, a doença, a juventude, a maturidade, a velhice e a morte com os animais, apenas os seres humanos, dentre todos os seres vivos, sabem que morrerão. (…) (…) (…) (…) Continue lendo »

A Descida aos Infernos: Rito de Morte e Vida

O Rapto de Perséfone” por Rembrandt van Rijn(1606-1669)

*Por Angelita Corrêa Scardua

É praticamente impossível falar da Morte sem nos remetermos às figuras enigmáticas que habitam os mundos subterrâneos do universo mitológico, e dentre estas figuras destacam-se as Deusas Negras. Comecemos então pela mais antiga registrada pela grafia humana, Ereskigal, a Senhora da Grande Região Inferior. Ereskigal era irmã de Inanna, a Rainha Sumeriana do céu, que é a forma primitiva de Ishtar, Afrodite e Venus. Conta o Mito que havia grande inveja e rivalidade entre as irmãs Inanna – a bela e adorada Senhora da fertilidade – e Ereskigal – a horrenda figura feminina com cabelos de sanguessuga que deu origem a mitos como o da Medusa. Continue lendo »

As Crianças e a Morte

A Órfã” por James Tissot(1836-1902)

Não adianta fingir que a morte não existe. Não adianta iludir-mo-nos. Todos nós vamos morrer um dia! É tão certo como estar neste momento a ler esras linhas… Tudo o que nasce tem um fim, a morte faz parte da vida, é uma realidade incontornável. Porque não falamos então desta inevitabilidade? Porque evitamos abordar o tema, especialmente com as crianças? Porque as impedimos de lidar com a tristeza, de se aproximarem de quem está a morrer, de se despedirem, de se exprimirem? A morte tornou-se demasiado incómoda. Como disse Pascal, já que não podemos substituí-la temos a audácia de não pensar nela! Continue lendo »

Considerações Sobre as Representações da Morte Individualizada: Imagens do Morto, da Boa à Bela Morte

Testemunhe Minha Morte e Confirme” por Edmund Blair Leighton(1853-1922)

Por *Déborah Rodrigues Borges e **Maria Elizia Borges

Durante o século XIX e até meados do século XX foi corrente, em diversas sociedades ocidentais, a prática de fotografar os mortos. A fotografia mortuária surgiu praticamente junto com a própria técnica fotográfica, segundo Jay-Ruby (1995), e é precedida de toda uma tradição anterior de representações pictóricas de mortos individualizados. Fatores sociais, culturais e mesmo psicológicos – como o valor das fotografias mortuárias no trabalho de luto, por exemplo – coincidem nos processos de produção e uso de tais imagens. Continue lendo »

Faz Parte da Vida

A Morte do Coveiro” por Carlos Schwabe(1877-1926)

*Por Flavio Sampaio

Empresas quebram o receio do brasileiro em falar da morte e criam seguro funerário num mercado que movimenta R$ 1 bilhão por ano. O jornalista Paulo Francis sempre dizia que temos duas certezas na vida: a morte e os impostos. E, por mais tétrico que possa parecer, não é possível ignorar que pelo menos 1,3 milhão de brasileiros morrem por ano no Brasil, movimentando um mercado surpreendente. Se forem contabilizados todos os produtos e serviços relacionados à morte, das flores ao jazigo no cemitério, chega-se à cifra de R$ 1 bilhão. Um valor capaz de justificar a realização do Salão de Arte Funerária em São Paulo no final de setembro. O evento não chega a ser surpresa para os milhões de brasileiros precavidos que adotaram a assistência funerária, uma espécie de seguro para cobrir as despesas na hora do óbito. Continue lendo »

Como as Religiões Encaram a Morte

A Morte Em Seu Pálido Cavalo” por William Blake(1757-1827)

Candomblé

Significado: a vida continua por meio da força vital do indivíduo. A parte imperecível do corpo (ou “ori”) não acaba, afirma o antropólogo Acácio Almeida Santos. E toda morte é fruto de uma intervenção.

Preparação: cultivando sempre sua força vital, pois as pessoas podem mudar seus destinos, apesar de existirem interferências na morte.

Reencarnação: o “ori” volta para a mesma família, mas em outro corpo. Já os homens fortes, que têm filhos, maturidade, prestígio social e morte aceitável, tornam-se ancestrais. Continue lendo »

Lição de Anatomia

Dissecação do Cérebro Pelo Professor Johan Deyman” por Rembrandt van Rijn(1606-1669)

Por *João Luiz Leocadio da Nova, **José Joffily Bezerra Filho  e ***Liana Albernaz de Melo Bastos

A formação médica resume-se à transmissão de conhecimentos sobre as doenças. Valores e atitudes de reconhecimento das subjetividades (tanto do médico quanto do paciente) não são privilegiados nesse modelo. Esta constatação levou-nos a pesquisar em que momento as escolas médicas iniciariam a produção dessa ideologia. Nossa hipótese inicial era a de que o embrião dela estaria no impacto que a prática anatômica provoca no estudante. A negação da mortalidade e da sexualidade humanas começaria a ser gerada na relação estudante-cadáver transferindo-se, posteriormente, para a relação médicopaciente. A revisão bibliográfica confirmou nossa hipótese. (…) Continue lendo »

O Luto Como Vivemos: Educação Para Morte

A Morte e a Donzela” por Hans Baldung(1484-1545)

*Por Valéria Tinoco

Afinal, o que é a Educação para a Morte? Será possível modificar, transformar e ensinar sobre a morte? Primeiramente, toda vez que nos referirmos a Educação para a Morte, incluímos aí a morte, o morrer e o processo de luto que acompanha e segue estes processos. Nós que trabalhamos com morte e luto somos indagados pelas pessoas ao nosso redor: Por que você estuda este assunto? Vai passar um fim de semana fazendo um curso sobre luto? Trabalhamos com o mais horrível? Continue lendo »