Habitar o Não-Lugar

*Por Cristiane Dias

A cidade contemporânea é delineada por um espaço muito particular para o qual migram cada vez mais os sujeitos de nossa sociedade: o não-lugar, um espaço “inqualificável”.

Para desenvolver o conceito de não-lugar apoio-me na reflexão de Marc Augé. Para esse autor o não-lugar não inscreve a identidade, nem a relação, nem a história, pois a história é aí reduzida à informação, a identidade a um conjunto de descrições numéricas, como o número do cartão de crédito, da identidade, do passaporte etc., e a relação com o outro é reduzida à espetacularização (tela, video-câmeras, televisão). Nessa perspectiva, o não-lugar demanda um usuário: “definido por seu destino, a soma de suas compras ou a situação de seu crédito, o usuário dos não-lugares anda ao lado de milhões de outras pessoas, mas está só e são os textos (painéis, discos, vídeos) que se interpõem entre ele e o mundo exterior”. Continue lendo »

Psicologia de Elevador

O meio de transporte, tão comum nas grandes cidades, nos obriga a dividir nosso espaço vital com estranhos e coloca à prova a capacidade de comunicação

*por Massimo Barberi

O elevador é o meio de transporte mais usado nas grandes cidades. Só em São Paulo estima-se que existam mais de 270 mil unidades. E cerca de 8 mil novos são instalados a cada ano no Brasil. A caixa metálica iluminada, com painel de botões e, em alguns casos, um espelho, proporciona o deslocamento vertical de forma muito simples e eficaz – e também explicita modos de interagir. Há os que se sentem donos da situação, justamente porque se encontram em uma área restrita. Outros experimentam o desconforto de compartilhar o espaço vital, tão exíguo, com desconhecidos e, intimidados, torcem para chegar logo ao andar de destino. Existem ainda aqueles que usam o local para jogos sexuais O fato é que cada um de nós tem uma forma de enfrentar o elevador. Com exceção, obviamente, dos que sofrem de claustrofobia e preferem a escada. Continue lendo »

Cuidar Da Cidade Começa Com a Boa Vizinhança

*por Priscilla Santos

Quando era estudante de arquitetura, Roberto Pompéia ouviu de um dono de construtora uma frase que jamais esqueceria: É um absurdo pensar em se dedicar aos pobres, pois os pobres não têm como te pagar. A sentença surtiu efeito contrário. Roberto tornou-se um representante da arquitetura popular no Brasil. Foi integrante do Laboratório de Habitação da Unicamp (LabHab), que se especializou em projetar mutirões para erguer casas na periferia,durante 13 anos. Quando o Laboratório foi extinto, em 1999, trabalhousozinho para terminar um mutirão no sul de Minas Gerais. Ao todo foram mais de 15 comunidades em estadoscomo Alagoas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Roberto acaba de defender, na USP, a tese de doutorado em que conta a história do LabHab e dos mutirões em que esteve envolvido. A vivência nas favelas e na periferia me trouxe a certeza de que a preservação e a qualidade do espaço público dependem de uma identidade coletiva que zela pelo seu lugar, diz. E para se criar essa identidade coletiva é preciso antes voltar os olhos para a história de cada morador. E nisso não importa classe social, raça, credo, religião. Continue lendo »

A Praça, O Parque, A Cidade Para Todos

Como psicólogos e educadores estão usando os espaços públicos para transformar as relações sociais e promover a cidadania.

A cidade de São Paulo tem quase quarenta parques municipais, além de centenas de praças. Para muitos, são um ambiente adequado para o prazer e relaxamento, pontilhado por crianças brincando e atletas treinando. Para indivíduos em situação de rua, um “dormitório”. Porém, esses locais podem se configurar em laboratório para a construção da cidadania. Os espaços públicos de lazer, como praças, parques e campos de futebol oferecem condições interessantes para os psicólogos desenvolverem atividades que estreitam o contato com a comunidade e promovem a observação das relações humanas, em particular, na periferia, em bairros onde os direitos sociais não são garantidos. Dessa intertavidade, podem aparecer informações importantes para a compreensão dos movimentos sociais. Continue lendo »