O Medo na Era da Liquidez

O traço mais opressor do medo, nos dias atuais, é que ele se tornou difuso e abstrato: a ameaça pode vir de toda parte. Ele leva à exclusão do outro, do “diferente”, e sacrifica a liberdade em prol de um pouco mais de segurança.

*Por Renato Nunes Bittencourt

O desenvolvimento da ideologia de bem-estar pessoal, que exige de cada cidadão “produtivo” o dever de desfrutar a sua vida da forma mais aprazível possível, destoa da necessidade desse mesmo grupo social de abrir mão do seu gozo material em prol de uma disciplina cotidiana que muitas vezes lhe gera intensos transtornos afetivos. Para se manter um elevado padrão de vida, o preço é doloroso: a contínua dedicação ao mundo do trabalho, que rompe a esfera do ambiente estritamente profissional e avança vorazmente aos sagrados espaços domiciliares. Entretanto, apesar da situação estressante que a dedicação profissional impõe a cada um de nós, nos esforçamos em manter o funcionamento pleno desse sistema social, baseado no esgotamento individual em prol do sucesso profissional, processo que sustenta a organização civilizatória do mundo ocidental, cada vez menos sólido. Continue lendo »

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Você tem medo de quê? A Pedagogização Midiática do Risco

*Por Daniela Ripoll

O programa Fantástico da Rede Globo de Televisão e o Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) possuem, há 13 anos, uma parceria para a divulgação de resultados relativos à testagem de produtos e serviços diversos, num segmento chamado “Atenção, consumidor!”. Uma dessas reportagens do Fantástico levou o Inmetro “para o arraial” – isto é, para verificar a qualidade dos alimentos mais tradicionalmente comercializados e utilizados no preparo de iguarias nas festas juninas (amendoim, fubá de milho e leite de coco). Um dos riscos era o da contaminação do amendoim pela aflatoxina, que “pode provocar lesões graves no fígado como cirrose e até câncer”. Ainda segundo a reportagem – que traz o depoimento de um engenheiro do referido instituto –, “os fabricantes têm hoje um programa de qualidade que garante a segurança alimentar do amendoim. É uma boa notícia para os consumidores”. Este é um exemplo prosaico de que o risco nos dias atuais tornou-se uma preocupação de todos e de cada um, não mais apenas restrito ao terreno dos poucos investidores das bolsas de valores ou aos casos isolados de indivíduos extraordinariamente aventureiros: o risco tornou-se banal, normal e vulgar – a começar pelo amendoim que você come… Continue lendo »

Fofoca Como Laço Social

Fofoca” por Eugene De Blaas (1843-1932)

*Por Jorge Forbes

Ora, ora. Duas psicólogas da Universidade de Staffordshire, na Inglaterra, gastaram um bom dinheiro para mais uma dessas pesquisas que pululam por aí, para satisfazer a febre empírica de tudo provar com números, característica de nossa época, e que disputam o prêmio “Ig Nobel”. Chegaram a duas conclusões apresentadas no último 7 de setembro, em congresso realizado na Universidade de Winchester: que fofocar elogiando faz bem para o fofocador, e que homens fofocam 76 minutos por dia, enquanto mulheres fofocam menos, só 52 minutos, contrariando a voz popular. Essa notícia obteve repercussão na internet, enquanto, nas plagas brasileiras, uma revista semanal abriu espaço nobre para reproduzir a nota, sem qualquer crítica. Continue lendo »

O Mecanismo de Construção de Sentidos do Fenômeno Social “Fofoca”

Fofoca” por Oliver Rhys (datas de nascimento e morte desconhecidas)

*Excertos de Apresentação de Catarina Satiko Tanaka

A fofoca na história

A fofoca foi estudada em vários contextos sociais, em tempos diferentes e com diferentes significados. Na Idade Média, por influência da Bíblia (SCHEIN, 1994) e do Tora (WYLEN, 1993), o “olhar da moral”, dos bons costumes e da religião fundamenta a leitura da fofoca e, como sanção moral aos ofensores, eram impostas punições, tais como humilhação pública, castigos físicos, torturas, incluindo a morte na fogueira (EMLER, 1994). Essas punições também aconteciam nas sociedades tribais da África (STIRLING, 1956). Segundo Schein (1994), os fatores que caracterizavam a Idade Média – a credibilidade da informação oral; o estrito código de comportamento para todas as classes sociais; bem como a imobilidade social (estagnação topográfica); e o fato de a comunidade ser relativamente pequena, – davam à fofoca um grande poder. Continue lendo »

Do Uso da Internet Como Forma de Resistência às Imagens Femininas Impostas Pela Mídia Tradicional

*Por Cynthia Semíramis Machado Vianna

Considerações iniciais

A imagem do ser humano, no século vinte, foi transformada através dos meios de comunicação de massa. A mídia divulgou e impôs um padrão de imagem que, longe de refletir a diversidade cultural, transformou alguns corpos em modelos estéticos a serem seguidos, mesmo que esses modelos violem as noções científicas do que deveria ser um corpo saudável e não correspondam à aparência da maioria da mulheres do mundo. Continue lendo »

A Interação Humana Atravessada Pela Midiatização

*Entrevista com o professor Muniz Sodré de Araújo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ

Muniz Sodré de Araújo Cabral é jornalista, sociólogo e tradutor brasileiro, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Escola de Comunicação. Possui graduação em Direito, pela Universidade Federal da Bahia, mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação, pela Université de Paris IV (Paris-Sorbonne), e doutorado em Letras (Ciência da Literatura), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve também o título de Livre-Docente em Comunicação. Continue lendo »

Mídia e Sexualidade na Educação Infantil

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refletindo sobre a atuação da indústria cultural e a construção da identidade de gênero na educação infantil

*por Acúrsio Esteves

Introdução

Diferente do que se pensava há algumas décadas atrás, a criança em nosso contexto social desde cedo estabelece vinculação direta do seu cotidiano com situações de experiências ligadas ao desenvolvimento da sexualidade. A profusão e diversidade de informações aliadas à permissividade gerada talvez pelo desejo da negação do preconceito e a vontade de fazer diferente da experiência vivida, faz com que a família a escola e a sociedade no afã de acertar, muitas vezes se confundam e por extensão às próprias crianças na construção da sua sexualidade. Continue lendo »