Com quem sonham as mulheres

rousseaudreamImagem: “O Sonho” por Henri Rousseau (1844-1910)

Não importa se é o Brad Pitt ou um homem mal-encarado que perturba a sua noite: qualquer figura que apareça no sonho é um pedaço de você, indicando necessidades e desejos desconhecidos.

Por Fábio Sanchez

Um homem feio, violento e perverso aterroriza as noites de grande parte da população feminina. Não há força policial que consiga detê-lo, porque foi criado pelas próprias “vítimas” e só aparece quando elas estão dormindo, ou melhor, sonhando. Freqüentador assíduo dos consultórios de psicanalistas, esse homem mau é o animus, nome que define o lado masculino da mulher, usado pela primeira vez por Carl Gustav Jung, pai da psicologia analítica. A tarefa – não dos terapeutas mas das próprias sonhadoras – é  seguir o rastro desse vilão que, quase sempre, ostenta características que faltam a quem sonha.

O animus é um dos grandes desafios da psique da mulher“, diz a psicoterapeuta Fátima Rodrigues. A imagem de homem mau pode querer mostrar a necessidade de a mulher desenvolver um lado mais agressivo, exigência típica no mercado de trabalho. O animus é comum também no consultório do analista Roberto Gambini, onde mulheres descreveram, em mais de cem sonhos, situações angustiantes e recorrentes, como a de motoristas de táxi que as conduzem para locais isolados ou desconhecidos.

“O homem mau quase sempre representa um lado daquela mulher que não está bem consigo mesma”, diz. Para os analistas, é importante saber como esses sonhos acabam: isso vai dar pistas de onde mora o problema. Vista dessa forma, a figura ameaçadora que aparece no sonho pode ser na verdade um grande amigo, indicando que algo está errado. “É enorme o número de mulheres que se queixam de noites apavorantes com um animus. Mas eu comemoro, porque é sinal de que elas vão se conhecer melhor e começar a mudar“, diz a terapeuta junguiana Maria Arielse Rabelo Branco. A figura do animus nem sempre é má. Pode ser positiva e surgir, por exemplo, como um homem sábio e experiente, que orienta e aponta caminhos.

Intimidade feminina

As mulheres sonham mais que os homens ou, pelo menos, lembram-se e comentam mais sobre essas passagens, avaliam os psicólogos. O próprio Sigmund Freud, pai da psicanálise, já havia percebido esse fato ao escrever, há cem anos, o livro “A Interpretação dos Sonhos”, no qual montou sua primeira teoria sobre o inconsciente, rompendo com os parâmetros de segurança e racionalidade do ser humano. Freud se baseou nos sonhos que ouviu em longas conversas com mulheres internadas em clínicas médicas. Essa intimidade feminina com os sonhos pode ser explicada de várias formas.

Mas uma das razões mais coerentes é que as mulheres têm sensações físicas e psíquicas bem mais intensas que os homens, já que passam por experiências como menstruação, gravidez e menopausa. “O corpo tem sua própria lógica para lidar com as sensações. E usa os sonhos para dialogar com a mulher“, diz Leila Cohn, diretora do Centro de Psicologia Formativa do Rio de Janeiro, grupo especializado em estudar a maneira como os sonhos manifestam as vontades das pessoas. Esses ciclos físicos, e outras experiências predominantemente femininas – como a dupla jornada de trabalho e a “síndrome do ninho vazio” (quando os filhos se tornam independentes e abandonam a casa dos pais) – fazem com que a mulher “preste mais atenção em si mesma e se torne mais intuitiva“, acredita Rita de Cássia Pereira Heten, do Projeto Orion, de São Paulo, centro que também usa os sonhos como auxiliares nas terapias.

Águas e desafios

Os mesmos enredos de sonhos se repetem com pessoas diferentes. Isso pôde ser comprovado até entre crianças, como constatou o estudo realizado por Roberto Gambini com 300 meninos e meninas, entre 3 e 6 anos. Segundo ele, as meninas têm uma maneira própria de sonhar atos de coragem, por exemplo. Elas sonham que estão realizando coisas sozinhas, sem a ajuda dos pais. Para os meninos, a coragem aparece durante uma briga, em que têm de enfrentar um monstro ou um ladrão. “O inconsciente da menina prepara a futura adulta colocando o desafio de sua independência, que hoje é um grande desejo das mulheres”. O menino já tem um ambiente que propicia maior independência e, por isso, o subconsciente vai trazer outros desafios”, diz Gambini.

A gravidez é um momento em que os sonhos se parecem bastante. Histórias relatadas por grávidas coincidem na presença do elemento água. “A gravidez não é só um evento físico. Traz a sensação de renovação. A água aparece porque, em suas variadas formas, simboliza a fonte da vida e é algo essencial“, afirma a psicoterapeuta Marion Rauscher Gallbach, que acompanhou, por vários meses, dez mulheres grávidas e anotou os temas de seus sonhos. Outro motivo, menos simbólico, é lembrado pela terapeuta Rita de Cássia: “As mulheres grávidas bebem mais água, vão mais ao banheiro e carregam um bebê envolto em grande quantidade de líquido amniótico, o que as deixa o tempo todo muito próximas desse elemento“. Outro tema típico em sonhos de mulheres grávidas são as situações perturbadoras em que elas são colocadas à prova. Marie-Louise Von Franz, uma das discípulas mais famosas de Jung, cita no livro O Caminho dos Sonhos (Editora Cultrix) o caso de uma mulher que sonha estar na iminência de ser morta por cáubois mas consegue se desvencilhar da encrenca por estar travestida da mesma forma que o grupo.

Para Marie-Louise, sonhos como esse significam o confronto entre o estado de gravidez, que requer mansidão e quietude, e a necessidade de a mulher ser ativa e realizadora. As adversidades representariam um impulso natural das mulheres por ação. Marion Gallbach descreve, em seu livro “Sonhos e Gravidez, Iniciação à Criatividade Feminina” (Editora Paulus), o sonho de uma paciente grávida, Alice. No enredo, ela não consegue chegar ao trabalho porque se vê no meio de uma inundação na Marginal Tietê, em São Paulo. Alice volta a nado para casa com a ajuda de um guarda. “O sonho era um sinal de que ela precisava encontrar outra maneira de lidar com a sua carreira profissional, agora que estava grávida“, analisa Marion.

Ninho vazio

Outro conflito por que passam mulheres mais dinâmicas e ativas é a distância quase que imposta dos filhos. “As mães ainda têm muita culpa em deixar os filhos na escolinha e ir trabalhar. É como se estivessem abandonando o ninho“, diz a psiquiatra e analista Tereza Machado. Em casos assim, os sonhos costumam trazer histórias de morte e perda ou a imagem da própria mãe matando o filho. “O inconsciente quer dizer que é hora de cumprir outro papel de mãe, o de expulsar o filhote do ninho quando chegar a hora“, afirma. Mesmo mulheres que não têm filhos costumam sonhar com crianças, que, para o psiquiatra e analista Cândido Vallada, simbolizam, obviamente, “a maternidade”.

Na menopausa é comum a mulher sonhar com atividades físicas, esportes radicais ou aventuras em locais muito altos ou muito baixos. Roberto Gambini diz que a repetição de temas, além de traduzir uma renovação psíquica, aponta para a necessidade de a mulher ter outros projetos, arriscar-se em atividades que até então não tinha vivenciado, readaptar-se à vida. Rita Heten lembra que, nessa fase, podem ocorrer outras mudanças, como o fim do casamento ou a síndrome do ninho vazio. “Aparecem cenas que sugerem ação, porque é preciso que a mulher, agora que não menstrua mais, se aproprie da energia que a natureza está restituindo e se dedique à própria vida com mais vigor“, diz.

Foi o que aconteceu com a terapeuta Lúcia Rosenberg, que teve menopausa precoce em 1997, quando estava com 40 anos. Ela sonhou com um penhasco e uma montanha, por onde andavam cavalos fortes e ágeis, e com mulheres que surgiam do centro da terra, escalando enormes buracos, como se fossem alpinistas. Interpretando hoje esses sonhos, Lúcia avalia que a mensagem, claríssima, era de transformação. “Percebi novas vontades e outra maneira de lidar com a vida. As mulheres alpinistas traziam a força interior, que descobri que tenho.

Alguns temas são tão freqüentes que, quase sempre, têm o mesmo significado. Funeral ou morte estão relacionados com o final de um ciclo e início de outro. A casa pode estar simbolizando a intimidade de quem está sonhando. “Sair de uma casa pode significar ausentar-se de si mesma“, diz Marion Gallbach. Foi essa a interpretação que ela deu ao sonho de uma paciente que fugia de casa depois de se deparar com labaredas que saíam do assoalho. Em terapia, Marion pediu que a paciente revisitasse a casa e observasse as chamas. A paciente, Rosa, hoje com 48 anos, acredita que “era uma representação psíquica do que estava acontecendo com o meu corpo“.

Rosa tinha um mioma no útero, que resistia em tratar e que curou dois anos depois do sonho. Sonhos, é claro, não são mensagens que devem ser interpretadas literalmente. As ações são cheias de simbologia e exigem atenção especial de quem está sonhando. “São enredos riquíssimos, com começo, meio e fim, e trazem situações reais da vida da pessoa. Surgem quando ela está mais indefesa, desarmada do consciente. Desprezar esse material é um grande erro“, diz Cândido Vallada, para responder a quem considera os sonhos destituídos de qualquer sentido.

Fonte: Revista Marie Claire

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