A Psicologia Feminina e o Caráter de Integração

*Por Rejane Maria Gomes Leite Natel e **Anyara Menezes Lasheras

Alguns autores Junguianos, promovem uma reflexão sobre a mitologia feminina e suas representações arquetípicas , bem como a necessidade da integração desses mitos e arquétipos em nossos padrões de comportamento atuais. Através dessa reflexão, podemos observar várias disfunções femininas, que segundo os autores, deu-se ao longo da história da humanidade, calcadas em um poderio masculino, tendo submetido o caráter feminino a uma subestimação que nos afasta do primeiro universo a que o homem tem contato após ser gerado: o feminino.

Tratando essa fase do desenvolvimento humano, a relação primária, como algo a ser evitado, em função de um contexto social, cultural e econômico que exacerba o patriarcado, como estruturante e eficaz, o feminino contido em todos nós, é visto de forma inadequada, impossibilitando a integração e a totalidade proposta pela Individuação na Teoria Junguiana, gerando conflitos e disfunções observadas em nosso cotidiano. Deste modo o texto, busca trazer à tona uma discussão que se faz necessária, para que possamos através da integração, olhar o sujeito como um todo, em sua individualidade na coletividade, e através da parceria e integração do masculino e feminino contido em nós, promover a vida psíquica em sua plenitude e “saúde”.

As mulheres na atualidade, apresentam quadros considerados disfuncionais, onde a desagregação psíquica promove um processo de subestimação que atuam não só alterando padrões de comportamento, como também na vida psíquica profunda. A observação se dá nos consultórios psicológicos, bem como em toda a área de saúde, seja desenvolvendo processos psíquicos ou físicos que trazem a tona o papel feminino em nossa sociedade (ocidental ) e a terrível dicotomização promovida, seguindo modelos de preponderância do masculino. As ciências naturais vêm descrevendo um processo que precisa ser revisto em toda a sua extensão, mas no que tange a psicologia feminina, a Mitologia Grega e sua representação no coletivo pode ser significativa, bem como o Arquétipo da Grande Mãe, onde Erich Neumann, se debruçou em sua obra “A grande mãe”, sendo prefaciada por Jung, onde manifesta a ampliação que a obra traz deste arquétipo e a sua importância.

Autores Junguianos, das escolas conhecidas, como a Arquetípica, Clássica e Desenvolvimentista, manifestam em suas obras a preocupação com o tema. Tratando a princípio do ponto de vista Mitológico, alguns autores se referem a seus trabalhos clínicos e a observação da “manifestação” das Deusas Gregas, exacerbadas, em detrimento a sua totalidade e polaridades propostas por uma dinâmica psíquica necessária a manutenção da “saúde” .

Jean Shinoda Bolen, em seu livro “As Deusas e a Mulher”, relata a presença dessas Deusas, em sonhos ou mitos, mobilizadas e atuantes, estruturando, segundo a autora, os padrões de comportamento dessas mulheres, de modo exacerbado. Essa exacerbação segundo seus estudos e acompanhamentos estão relacionados ao contexto sócio-cultural dessas pacientes. O processo de “des-patologizar” essas manifestações abrange a ruptura de padrões vigentes na nossa sociedade. Exemplificando, a questão do patriarcado como fonte de origem desses padrões, nos remete a questões tal como a repressão a algumas “Deusas”. Afrodite, nos nossos dias traz uma representação muitas vezes vulgarizada. Assim, sua manifestação é contida, embora reprimi-la seja negar a sacralidade sexual e sedutora do Feminino.

Nancy Qualls-Corbett, em a “Prostituta sagrada”, amplia esse tema, trazendo a reflexão sobre a repressão desse mito em função de um contexto histórico social que o justifica, chamando nossa atenção para a dicotomização que esse processo acarreta. A sexualidade feminina, por muito tempo permaneceu retida na procriação e manutenção da espécie, descartando a espiritualidade do ato em seu êxtase. Hoje o que observamos é que somos conhecedores da anatomia e fisiologia sexual, porém a ritualidade proposta pelo mito, foi totalmente abolida em sua sacralidade e representação iniciática do desenvolvimento sexual inato. O prazer por si, é profano e sucumbe a uma vulgaridade que acaba por desprezar a beleza e a polaridade do mito.

Relações interpessoais, sobrepõem-se a individuação, descartando a necessidade psíquica, atendendo a um patriarcado de poderio e violência . J. Bolen, utiliza um parágrafo de Joseph Campbell, em “The Hero with a thousand faces” para sustentar a afirmação que ao sucumbirmos diante dessa repressão, negamos o nosso entendimento do que seja o feminino: a integração da sexualidade como um rito.

A função primordial da mitologia e do rito tem sido a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano adiante, em contra-posição a outras fantasias humanas constantes, cuja tendência é de refreá-lo.” (J. Campbell).

Assim a prostituta profana, vigora como representação da sensualidade, sendo observada e apontada em sua polaridade negativa, embora esteja inserida no mito, que deve manifestar suas polaridades. Assistimos a uma grotesca banalização da sensualidade, ou em contra-partida a supervalorização da intelectualidade e “funcionamento” sexual, que em nada satisfaz a natureza da psique.

Devido às necessidades sócio-econômicas, a mulher vê-se sobrecarregada em afazeres, tentando uma união dessas deusas, porém a valorização dada à representação mitológica de Atenas, “a filha do pai”, acaba por enfatizar o patriarcado. O raciocínio lógico e a eficiência, excessivamente exigidas, trazem disfunções observáveis no cotidiano. Deste modo, exacerbações, sejam das Deusas Virgens: Ártemis, Atenas e Héstia, ou de Deméter, Perséfone, Hera ou Afrodite; servem a psique individual e portanto ditadas pelo meio social e cultural, transgredindo assim a necessidade de totalidade e integração de todas as Deusas, proposto no processo de Individuação da teoria Junguiana. Todas estão contidas no Inconsciente Coletivo e são necessárias à psique feminina. A sobreposição de uma delas, supõe a necessidade do Self, centro regulador da Energia Psíquica, sendo um processo dinâmico e não estático.

Tratamos até o momento de um dos maiores desafios do ser humano, o de buscar a harmonia entre os opostos e a possibilidade de se desenvolver nele. Seguindo esse raciocínio, Riane Eisler, em “O cálice e a espada”, retoma símbolos de integração entre o feminino e o masculino, afinal não podemos pensar a psicologia feminina sem seu contra-ponto: o masculino. Opostos e portanto inter-relacionados. Assim, a teoria Junguiana, nos remete a dois arquétipos importantes e necessários na Individuação, que é o processo da busca do Si-Mesmo, a Anima no homem e o Animus na mulher, e esta integração é necessária, a nível simbólico, para a sobrevivência psíquica.

Eisler, através da história da humanidade, traz uma reflexão sobre o Poder e a Hierarquia. Destaca a desintegração, guerras e conflitos entre homens, partindo da supervalorização de qualquer um dos símbolos contidos no feminino ou masculino. De novo, nos deparamos com a exacerbação. Propõe a “parceria”, como uma possibilidade no processo harmônico de coexistência desses dois opostos: masculino e feminino. A receptividade do cálice como abrangedor e provedor, possibilita uma transformação do significado do símbolo que utiliza como masculino: a espada. Essas representações contidas em nosso Inconsciente Coletivo e Individual trazem a espada como um símbolo de Violência e Poder. A autora nesta obra, faz uma transcrição do significado. Não se abstendo da simbologia negativa do cálice, porém retoma a positividade da espada.

Historicamente, a submissão do feminino a espada, dá-se de forma aniquiladora e a supervalorização da abstração, promove o afastamento dos símbolos concretos como o fato do feminino gerar a vida. A “evitação” dos símbolos concretos, como o vaso, o cálice, os receptáculos que nos remetem ao “útero”, nos afastam também do centro simbólico da vida e da morte, dando ao poder o “endeusamento”, e nos afastando da mortalidade, embora sua forma de atuação seja exatamente a de ameaça a própria vida, física ou psíquica. No trabalho simbólico, Erich Neumann, em a “A Grande Mãe”, é fonte de informação de R. Eisler e possibilita um estudo ampliado da necessidade de olharmos com atenção para esse arquétipo.

A universalidade arquetipica, sustenta que os psicólogos da cultura, vêm à problemática feminina sob o mesmo prisma, e reconhecem a ameaça à humanidade, sendo em grande parte assentada no desenvolvimento patriarcal unilateral, descartando abusivamente o mundo matriarcal contido em nossa psique. A relação primária do homem se dá nesse universo: o matriarcal. Justificando esta afirmação, o estágio mais primitivo do caráter elementar, denominado por Neumann, trata da feminilidade predominante do Inconsciente, podemos também denomina-lo como Energia Psíquica, que é a situação original da psique. Objetos de arte encontrados trazem a representação dessa sociedade que Eisler chama de Matricial, ou matrilinear.

Opostamente, temos que avaliar a negatividade do caráter elementar ou seja, no desenvolvimento humano a transformação se faz necessária, caso contrário o ego sucumbe à intensidade do aspecto elementar. Assim retomamos as polaridades e sua dinâmica compensatória no desenvolvimento. Símbolos receptivos, tratam do útero como gerador da vida, quando não podemos “sair” dele, submergimos num mundo escuro, a morte psíquica é representada pela mãe terrível. Sair desse universo corresponde à corporeidade necessária a individualidade, trazendo novos símbolos, a boca, o coração e outros como a luz. A saída para o mundo externo, finalmente rompe-se a imagem urobórica de retro-alimentação, tornando-se necessária à integração do sol, símbolos do patriarcado.

Atualmente, surge a necessidade de reavaliarmos a historia, seja do ponto de vista mitológico, desenvolvimentista ou arquetípico. As exacerbações, se contrapõem a uma proposta de entendimento da integração de vários aspectos de nossa psique. Causando desse modo, danos físicos, psíquicos e conflitos entre os opostos. Assim os autores citados, nos dão inúmeros relatos e estudos sobre o assunto. Refletem sobre a necessária integração dessas “partes” , como a única possibilidade de coexistência, alertando que a não observância desse processo, retire de nossas vidas várias possibilidades: emotividade, criatividade, etc. Causando disfunções que dificultem a Individuação, embora Jung tenha postulado que esse processo se dará de algum modo. As diferenças individuais e coletivas serão facilitadores ou não nesse processo, porém ele ocorrerá de algum modo.

*Rejane Maria Gomes Leite Natel é Psicóloga, especialista em Psicologia Analítica- USF, mestranda em Ciência das Religiões – PUC/SP e **Anyara Menezes Lasheras é Psicóloga, especialista em Psicologia Analítica – USF

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