Satã, Uma Imagem Arquetípica do Mal… (Parte I)

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Para começo de conversa, precisamos entender que o ser humano é um ser gregário. Ou seja, seres humanos necessitam da companhia de seus pares para sobreviverem e se adaptarem ao meio. Ao nascermos somos muito frágeis e precisamos de cuidados constantes por um longo período de tempo, até que possamos caminhar com as próprias pernas. Tal arranjo levou a humanidade a se organizar em grupos para obter mais chances de caçar, coletar alimentos e criar os filhotes. Com isso podemos entender que, para o ser humano, a sobrevivência do grupo significaria a sobrevivência do indivíduo. Sendo assim, o grupo tornou-se o fundamento da existência humana e qualquer coisa que o colocasse em risco deveria ser entendida como nociva.

Aqui chegamos no ponto em que ocorre uma cisão entre o que seria o bem e o que seria o mal ao nível do imaginário coletivo da humanidade. Tudo  àquilo que pudesse colocar o grupo em risco de dissolução seria naturalmente tido como maléfico. Pois a dissolução do grupo representaria a morte do indivíduo e conseqüentemente a extinção da espécie humana. Por outro lado, tudo aquilo que pudesse fortalecer o grupo seria visto como benéfico, visto que o fortalecimento do grupo implicaria em maiores chances de sobrevivência individual e perpetuação da espécie.

Seguindo esse raciocínio podemos pensar que diferentes grupos coroaram o mal com  atributos diversos. Muito embora todos esses atributos falassem de alguma forma de desobediência, de indisciplina, de rebeldia, de recusa… Ora, se o mal estava intimamente relacionado àquilo que poderia colocar a sobrevivência do grupo em risco, toda atitude que se opusesse às regras do grupo haveria de cair na denominação de mal. Mitos como o de Adão e Eva, Lilith, Lúcifer, Prometeu e Pandora ilustram maravilhosamente esse aspecto do mal associado à desobediência. Ainda, o fato dos diferentes grupos humanos enfrentarem diferentes obstáculos para a sua sobrevivência devido a diferenças geográficas, climáticas, etc., fez com que a Mitologia em torno do mal adquirisse contornos muito particulares em cada povo. Se não, vejamos:

Os povos Semitas pré-cristãos fundamentavam sua organização social e econômica em torno do pastoreio. Como em geral acontece com os povos de origem pastoril, os Semitas eram nômades que viviam deslocando-se com seus animais de um lugar para outro a fim de trocar e negociar lã, leite, couro, carne e quaisquer outros produtos obtidos com os rebanhos…e essa era sua fonte de sobrevivência. Logo, tudo o que fosse empecilho para obtenção do pasto e para o deslocamento necessário para as negociações haveria de ser visto como mal, porque obviamente colocava a sobrevivência do grupo em risco.

E o que poderia impedir o bom andamento de um grupo como esse? O mitólogo romeno Mírcea Elíade, nos faz pensar sobre essa questão abordando o papel da mulher nessas sociedades pré-cristãs do Oriente Médio. Segundo Elíade, as mulheres nas sociedades Semitas (como na maioria das culturas da antiguidade) eram responsáveis pelo cultivo da terra, pela organização da casa/tenda, pelo preparo dos alimentos e pelos cuidados das crianças e velhos. Adicione-se a isso o fato de serem elas, àquelas que engravidam, que parem, que amamentam…Para exercer todas essas funções, as mulheres precisavam carregar consigo os filhotes e todas as “tralhas” requeridas para a execução de suas tarefas diárias com a casa e a terra. Para um povo que precisa constantemente estar se deslocando e guerreando por espaço isso é um estorvo!!

É interessante observar que na natureza dificilmente encontramos grupos de animais nômades constituídos por machos e fêmeas adultos que convivem harmonicamente. O nomadismo na natureza é quase sempre caracterizado por grupos animais em que fêmeas e machos adultos vivem em bandos separados, ou em que as fêmeas submetem-se aos machos. De maneira análoga, observa-se que o tratamento dispensado às mulheres nas sociedades humanas nômades, ainda hoje, é consideravelmente mais desigual do que àquele conquistado nas sociedades sedentárias. Haja vista, a condição das mulheres Ciganas, Eskimós e de outros grupos nômades como Thuaregs, etc.

Seguindo o raciocínio de Elíade, fica mais fácil compreender como sociedades nômades produziram Mitos ligados ao Arquétipo do feminino como o de Lilith – mulher parideira que reivindica os mesmos direitos dos homens – ou Eva que, apesar de sua condição de “auxiliar idônea” de Adão, é curiosa o suficiente para desobedecer às ordens do patriarca. Ou ainda, de como surgiram Mitos como o de Caim e Abel. Em todas as versões desse Mito, Abel que é visto como o bem é pastor. Caim, porém, aparece em duas diferentes atividades, dependendo da versão do Mito; as atividades em questão são agricultor e ferreiro. Tanto a atividade agrícola quanto a de ferreiro exigem assentamento, fixação num mesmo lugar. A atividade de ferreiro, em especial, está diretamente ligada à constituição da cidade; e a cidade é por excelência o fim do modo de vida nômade. Em algumas versões do Mito de Caim e Abel, Caim é tido como o fundador da primeira cidade na terra dos homens.

Uma outra origem para os Mitos que expressam imagens arquetípicas do Mal, diz respeito as dificuldades ambientais enfrentadas pelos primeiros grupos humanos. A escuridão da noite que trazia a ameaça de predadores escondidos nas sombras, tempestades violentas, raios e trovões incontroláveis e vulcões em erupção capazes de incendiar, matar e ferir representavam o excesso da força natural que fugia ao domínio da humanidade; e poderia colocar em risco a frágil vida dos primeiros seres humanos sobre a terra. As forças indomáveis da natureza, portanto, poderiam ser associadas ao mal, da mesma forma o frio ou calor intenso, que representavam para nossos ancestrais a morte inequívoca e colocava em risco a sobrevivência do grupo e da espécie.

Pensemos, então, no frio excessivo do norte da Europa; pensemos no Mito nórdico do deus Loki que, miticamente falando, aparece como uma das clássicas representações arquetípicas do Mal. Entre os antigos povos das terras geladas do norte da Europa, os grupos Vikings tinham na conquista/invasão de “terras” alheias não só a chance de acumular riquezas mas, principalmente, a de fomentar a própria sobrevivência. Natural era que a sua organização como um povo estivesse associada aos valores atribuídos à função de guerreiro.  Além do mais qualquer inverno mais rigoroso e prolongado do que o esperado era suficiente para dizimar as chances de sobrevivência dos habitantes da Escandinávia, minando as promessas de semeadura e colheita vindouras e a saúde dos rebanhos. Diante disso, uma das possíveis soluções para a sobrevivência seria a guerra e o saque advindo desta. Não é de espantar que para os Vikings a virtude se encontrasse em valores como: Coragem, Verdade, Honra, Fidelidade, Disciplina, Diligência, Perseverança e Autoconfiança. Todos esses atributos, tão valorizados pelos Vikings, nada mais são do que elementos necessários para se conduzir um exército vitorioso, afinal é disso que se necessita para entrar numa guerra e sair dela com vida.

Então o que poderia ameaçar a harmonia de um grupo Viking? A covardia, a traição, a trapaça… elementos que podem colocar uma guerra a perder! E esses são os atributos de Loki, o deus nórdico que alguns gostam de associar à figura do Satã judaico-cristão. No entanto, embora tanto Loki quanto Satã sejam Mitos representativos da Imagem Arquetípica do Mal, eles possuem origens diversas e, por essa razão, expressam atributos diferentes. Arquétipos são universais, Mitos não! Mitos são regionais e falam da história e da origem de cada grupo/povo distintamente, e é por isso que um mesmo tema arquetípico pode ter várias representações – várias imagens – pois cada grupo representa o Arquétipo – confere-lhe significado simbólico e o expressa por meio de imagens – de acordo com sua vivência e realidade espaço-temporal.

Por Angelita Corrêa Scardua
Leia a segunda parte do artigo AQUI


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